fbpx
Loading...

Gente Comum

Gente Comum

Por Inácio Feitosa


Vou iniciar hoje entrevistas com pessoas que passam desapercebidas por boa parte da sociedade e dos veículos de comunicação. A história deles não trás anunciantes, por isso mesmo não são relatadas pela mídia. Eles são os empreendedores invisíveis. 
O primeiro é Seu José Luciano da Conceição, carpinense, de 58 anos,  separado ( “mas, tenho mais de 10 mulheres…”, disse com um sorriso no canto da boca), empreendedor forjado pela vida. “Não sei nem o que significa isso”, disse ele.
Luciano mora na comunidade da Ilha das Cobras (hoje chamada de conjunto Padre Edvaldo, homenagem ao pároco do bairro, falecido recentemente), próximo à Praça de Casa Forte, em um bairro bucólico, da capital pernambucana. 
Há 34 anos “Seu Luciano”, como é conhecido pelos populares, decidiu trocar a construção civil, na qual era servente de obras (“ganhava muito pouco”), pelo comércio informal, e ser dono do seu próprio negócio. 
Ele não sabe ler, nem escrever, mas aprendeu a fazer contas básicas para não perder dinheiro com seu comércio. Vende fiado somente para clientes antigos, mas tudo anotado pelo freguês com uma caneta bic no seu caderno.
Escolheu o ponto na esquina com a Igreja de Casa Forte, pois o local “era muito bom, e não tinha ninguém”. 
As missas fornecem uma clientela extra para suas guloseimas, mas admitiu que as vendas caíram durante as pregações dos últimos anos.
“Era tudo mato quando cheguei nesse local. Tinha um pé de manga, que fornecia sombra para os confeitos não estragarem com sol, por isso decidi ficar por aqui”. A árvore continua lá, assim como o sonho do nosso entrevistado. 
Antes de sair da empresa de construção civil, Luciano juntou dinheiro,  mandou fazer a carrocinha de bombons e cigarros, e foi ser comerciante. A estratégia do seu  “Business” foi definida por pura inspiração: “quem compra cigarro pede um café, e depois um doce. É fácil vender o que custa barato”.
Mais de três décadas depois, seu Luciano continuadamente trabalha de segunda a sábado, inicia às  6h30, carrega sozinho sua carroça, seus confeitos, cigarros, água, refrigerantes, pipocas, café e outras miudezas.
Compra seus produtos em um distribuidor do bairro de Casa Amarela, próximo a ladeira do cemitério. É um dos clientes mais antigos daquele estabelecimento.
Seu expediente só termina às 17h, com exceção dos sábados, que fecha mais cedo, às 15h, pois o “movimento cai muito”.
Com seu estilo humilde, introvertido e olhar estrábico,  conquista clientes, entre eles os moradores do bairro, da paróquia e a criançada do prédio cuja grade faz divisa com o seu estabelecimento sobre quatro rodas.
Seu Luciano limpa diariamente sua calçada, pelo “menos sete vezes ao dia”, fato que agrada o condomínio, dono da calçada,  que lhe permite usar o local sem desavenças.
Por dia chega a apurar líquido, uma média de 50 reais. Nunca colocou ninguém em seu lugar, pois “o dono tem que tomar conta do que é seu”. Só não vai trabalhar quando chegam às fortes chuvas de Recife.
Certo dia foi assaltado, e levaram suas economias. Por precaução não guarda mais o apurado na carrocinha. 
Seu Luciano deseja se aposentar por idade pelo INSS, mas desconhece discussões que tramitam em Brasília.    
Do seu jeito e com a sua formação até o segundo ano do fundamental, Luciano soube estudar o local, a clientela,  e as oportunidades para abrir seu empreendimento e atrair clientes. Tudo o que não se aprende no academicismo de nossas universidades.
Seu José Luciano da Conceição é um belo exemplo, não só por ser empreendedor em um país que idólatra o serviço público.  Porém, por ser um cidadão brasileiro que decidiu escrever sua própria história, e aprendeu a não depender do Estado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

 
 
 

Inscreva-se na nossa newsletter

Inscreva-se na lista de e-mail da Êxito Educacional para receber atualizações sobre novos cursos, ofertas especiais e outras informações sobre descontos.